Falar de apagão de talentos ou de profissionais, como preferem alguns que consideram o termo talentos questionável, não é nenhuma novidade. No 1º Encontro dos Grupos Informais, realizado em dezembro de 2008 pela ABRH-SP – evento que discutiu o tema no auge da crise financeira internacional e, portanto, em um período de demissões –, os especialistas já alertavam para o problema no pós-crise. O professor da FEA/USP Helio Zylberstajn, por exemplo, foi mais fundo falando, durante o encontro, sobre o desajuste estrutural permanente no Brasil decorrente do baixo nível de mão de obra e do péssimo nível do sistema educacional.
Não deu outra. Passada a crise no Brasil, o apagão voltou a assustar as empresas, só que agora com o acréscimo de um novo tipo de apagão, além do técnico: a falta no mercado de profissionais com maior maturidade emocional, espírito empreendedor e que sejam capazes de “virar a mesa”. Se por um lado, a carência de técnicos pode ser suprida pelos investimentos em formação, a falta de profissionais maduros é mais difícil de ser superada. “É um desafio desenvolver o lado comportamental da pessoa, não basta dar curso”, analisa o presidente da consultoria de Recursos Humanos DBM Brasil, Cláudio Garcia.
Sócio da 2GET, consultoria especializada no recrutamento de executivos para atuação na alta administração e gerência, Paulo Mendes atesta essa busca das empresas por um perfil específico, o dos chamados “viradores de mesa”: profissionais com um empreendedorismo muito forte e que pensam no negócio como se fossem donos. “Atualmente, temos 20 posições em aberto no mercado imobiliário porque falta gente com esse perfil procurado pelas empresas. O mesmo acontece na área de Recursos Humanos, com algumas posições em aberto porque as organizações querem um RH que fuja do clássico e seja capaz de entrar no negócio, características difíceis de achar no mercado.”
Diante das dificuldades de encontrar tanto técnicos quanto maduros, a solução imediata das empresas tem sido partir para o leilão de profissionais, tirá-los do concorrente e, consequentemente, pagar mais caro por isso. Outro caminho, segundo Mendes, tem sido procurar o perfil em outros setores. Por exemplo, colocar alguém da área comercial, com aquele senso de negócios esperado, muito embora sem experiência, em Recursos Humanos.
Mesmo essas alternativas, porém, têm limites. Como resultado, a falta da pessoa certa pode comprometer o crescimento da empresa e, em decorrência disso, atrapalhar a economia como um todo. ”O problema do apagão profissional é tão sério que começo a questionar se esse crescimento projetado para o Brasil pode ser uma farsa”, reflete Garcia, para quem, ao contrário de países como a Coreia e o Vietnã que investiram em educação para suprir o gap nos anos 1970 e 1980, o Brasil só começou a se preocupar com a questão no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, tarde demais.
Quadro: Ferramenta contra o apagão
Preocupada com a questão do apagão profissional, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) deu início a um trabalho de gestão do capital humano que tem como propósito ajustar a demanda e a oferta de mão de obra qualificada do setor industrial por meio de um sistema de informações e uma ferramenta estratégica: o site www.fiesp.com.br/capitalhumano, recurso que permite que indústria e instituições de ensino atuem como gestores do capital humano, de maneira planejada e conjunta. De acordo com Cristiane Medina, técnica do Departamento de Ação Regional (Depar) da Fiesp e responsável pela construção da ferramenta, a iniciativa nasceu de uma pesquisa feita pela entidade em 2008 para compreender as principais aflições dos empresários. “Para nossa surpresa, eles apontaram a falta de mão de obra qualificada e o desajuste entre as necessidades das empresas e a oferta das instituições de ensino”, conta. |